Do fundo da infância

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Quem dera eu Imagem disponível em: http://www.thecluelessgirl.com/2013/08/diy-roadside-lemonade-stand-for-only-3.html

Filha única até os seis anos de idade e muito tímida para fazer novas amizades facilmente, me recordo de brincar bastante sozinha durante a infância. Perto do Natal, que na época, levava um milênio para chegar, eu fazia desenhos temáticos para “decorar a casa”. Lembro especificamente de uma tarde em que estendi um varal na sala e pendurei um monte desses desenhos.

A árvore de natal dos meus pais ainda ostenta um papai Noel de papel que a Eliana (do Bom Dia e Cia.) ensinou a fazer. Ao virá-lo, você encontra o número 65, o que quer dizer que o vendi para os meus pais a 65 centavos.

Quando minha prima que morava em São Paulo (me mudei de SP para São José dos Campos com meus pais quando tinha 2 anos) passava férias lá em casa, a gente passava os dias (dentre outras muitas brincadeiras) ensaiando coreografias de músicas da Xuxa e quando meus tios vinham busca-la e a casa estava mais cheia, a gente fazia apresentações, das quais cobrávamos alguns centavos de cada um para assistir-nos do sofá.

Teve também a vez que inspirada pelo desenho “Denis, o pimentinha”, que vendia limonada na vizinhança, resolvi que iríamos vender suco para os meninos que jogavam bola no campinho. Não tinha uma barraquinha de madeira, toda maravilhosa como a do desenho ou como a da foto aí em cima. Era suco de caju, num garrafão térmico azul e alguns copos plásticos, mas arrecadei uns bons 60 centavos de cada um.

O engraçado é que eu não faço ideia de como gastei esse dinheiro que ganhei na época, mas lembro bem de como eu gostava de brincar de vender as coisas. Acho que por isso eu ia na despensa pegar mantimentos e brincava de caixa de supermercado. Enfiava meu irmão no meio, claro, porque alguém tinha que comprar aquilo tudo.

Com barro do terreno baldio da frente de casa, eu e as vizinhas fizemos potinhos e panelinhas. E adivinha só? Arrumei todos os itens numa tabua de madeira apoiada em dois tijolos. Era uma banquinha de venda.

Outra coisa que eu fazia muito era brincar de casinha e de boneca. Como eu gostava de brincar de ter uma casa e competir com as amiguinhas para ver quem conseguia cuidar da boneca mais parecido com “um bebê de verdade”!

Minha vó paterna me dava retalhos de tecido para brincar e eu não lembro direito o que fazia com eles mas lembro de fazer tapetinhos em miniatura e de tentar fazer roupinhas também. Ficavam uma porcaria, mas lembro de enfiar os bracinhos da boneca num tecido plano no qual eu cortava círculos. Quase dava certo.

Também inspirada por algum desenho que eu não sei qual, cismei que queria uma boneca de pano. E acho que eu enchi tanto o saco da minha vó materna numa das muitas férias que passei dias na casa dela, que ela fez pra mim uma boneca que eu tenho até hoje, costurada toda a mão, com a cabeça de meia, cabelos de linha marrom e uma saia feita com retalho de uma almofada velha. Como eu fiquei feliz com aquilo!

Olhando assim agora, com uns bons 20 anos de distância, parece que eu sempre fui eu. Que eu estou bem aqui, do jeitinho que eu era. E isso me traz lágrimas aos olhos, porque é quase como encontrar minha essência. Ou talvez não seja quase. Talvez seja isso. Talvez ela sempre estivesse aqui.

Nem era esse o objetivo quando eu comecei a escrever, são 2h30 da manhã e estou aqui esperando um render da maquete eletrônica acabar e ia aproveitar o tempo de espera para escrever um “about” para o meu projeto mas me foi vindo isso tudo e acho que nem preciso pensar em mais nada por hoje.

Tomada por boas lembranças, encerro o meu dia aqui. 🙂

Do fundo da infância

metas, pedras no caminho e alguns tropeços

vaso2Hoje eu plantei uma planta no vaso de concreto que eu fiz e isso me deixou muito feliz. Não pela planta, nem pelo vaso. Também por eles, vai. Mas principalmente por mim, pelo alívio de ter completado uma coisa.

Em junho de 2014 encerrei uma parceria/sociedade e quem conviveu comigo sabe que não foi bolinho. Quando penso sobre essa fase de ruptura, me lembro de como sendo uma das piores da minha vida.

Desde então estive completamente perdida. Sabia que não queria mais fazer colares ou somente colares. Queria ter experiências diversas, queria conhecer pessoas, fazer outras coisas.

Logo após este rompimento, meu impulso foi de tentar fazer coisas completamente diferentes, fugi como o diabo da cruz daquilo que eu fazia. Fugi dos colares, fugi da madeira, fugi de tudo. Mas continuava tendo milhares de ideias, pois nunca paro de tê-las.

Nesse meio tempo criei um outro projeto e queria que ele fosse a salvação da minha vida. No momento em que eu o criava, sabia que era pra tapar buraco. Queria curar a minha perda e o meu rompimento fazendo outras coisas ou pelo menos pensando em fazê-las. Nessa época, mais ou menos há 1 ano e alguns meses atrás, eu desenhei este vasinho e este porta-velas.vaso1

Desenhei-os milhares de vezes. Comprei silicone, fiz moldes, fiz alguns testes, mas não conseguia ir pra frente. O vaso principalmente. Ele não saía de jeito nenhum. Sempre era alguma coisa, algum problema que aparecia. Nunca dava.

Quando me mudei pra São Paulo, no início do ano, achei que iria viver muitas experiências. De fato tive muitas delas, profissionais e emocionais e todas essas mudanças também não deixaram de ser uma nova ruptura. Acostumada à vida em Floripa, da qual eu tanto reclamava, tinha uma certa ilusão de que as coisas se arranjariam rapidamente, laços seriam estabelecidos, eu me acomodaria instantaneamente e logo tocaria meus projetos e tudo daria certo.

Mas me vi angustiada mês após mês. Angustiada ora por não conseguir trabalho fixo, ora pela morte da minha vó, ora pela incerteza gerada pela doença que meu pai descobriu ter, angustiada pra pagar o aluguel caríssimo, angustiada de saudade da rotina leve e dos amigos e angustiada porque meu relacionamento se diluia e escapava por entre meus dedos. Eu queria fazer tudo e não fazia nada e enquanto isso meus moldes por fazer ficavam me olhando do outro canto da mesa.

Era uma coisa atrás da outra. Foi um ano digamos assim, difícil. E eu não conseguia produzir nada. Nem bordado, nem moldes, nem projetos. Isso me deixava numa prisão em mim mesma da qual eu não conseguia sair. E cada passo levava meses para se concretizar. Em agosto ou setembro deste ano, fui finalmente até uma marcenaria (o lab74) e consegui fazer as peças que dariam origem aos moldes.

Nesse meio tempo, trabalhos apareceram, a Piscina nasceu, fiz aulas de cerâmica no Sesc, uma tempestade passou pela minha vida, me tirou da minha zona de conforto e me fez repensar o sentido de tudo. O bom é que diante disso, os problemas de ontem não passam de um pontinho pequenininho na história da minha existência e os problemas de hoje parecem bem mais palpáveis e menos desesperadores.

Ainda estou repensando tudo e minha vida parece ser uma tela em branco, mas consegui finalmente tirar algumas coisas do papel. Seja amassando argila, seja colocando em prática devagar os meus projetos, eu fui ganhando um pouco de paz. É difícil falar de paz nesse momento, pois tenho vivenciado uma montanha-russa emocional, mas é isso. E estou grata por estar onde estou pois isso me proporcionou a possibilidade de enfim fazer e fazer é importante.

O vasinho é importante, o castiçal é importante. As peças de cerâmica que tirei do forno e vi maravilhada no que um pedaço de argila tinha se transformado, também são importantes. Coincidentemente, esses dois “feitos” vieram na mesma hora. E a importância deles está no que eles fazem eu sentir.ceramicas.png

Depois de adiar, inventar desculpas mil pra não estar fazendo o que eu queria ter feito e me deixar levar por pensamentos autodestrutivos do tipo”todo mundo já faz essas coisas, pra quê?”, o sentimento de terminar é tão maior que nada disso importa. Eu fiquei feliz. 🙂

Estas coisas (sempre “coisas”, essa palavra que eu uso tanto) me fazem sentir como se eu estivesse recobrando um certo controle sobre mim mesma e me fazem pensar sobre quem eu sou e no que me tornei depois de tantos acontecimentos. Elas foram um caminho e fizeram com que eu olhasse um pouco pra dentro e pudesse ver o que eu quero. Me fizeram recobrar a auto-estima e ver que eu consigo. E me fizeram ver que as metas podem mudar ao longo do processo, mas que é importante alcançá-las, sejam elas pequenas como forem.

É isso. Sinto que até as derrotas e as pedras no meio do caminho que ninguém quer mostrar com medo de parecerem frágeis demais ou ruins demais perante os outros, são tão ou mais importantes que as próprias conquistas e sem elas, provavelmente as vitórias e acertos nem existiriam.

Plantar esta plantinha no vaso que eu fiz e colocá-lo sobre o pedaço de madeira e ver que ele ficou bonito como eu pensava que ficaria enquanto rabiscava no meu caderno, me trouxe uma coisa tão boa, tão genuína, que me trouxe tranquilidade e me fez querer mostrar pra todo mundo. E agora ele está aqui. Pois se me fez sorrir por dentro, porque não compartilhar?

 

 

metas, pedras no caminho e alguns tropeços

let the stream flow

river-flow.pngQuando comecei esse bordado, queria bordar algo que pudesse expressar os pensamentos agressivos turbulentos que eu andava tendo. Comecei a fazer pontos aleatórios, que demonstravam a minha confusão e minha dificuldade em colocar as ideias no lugar. Escolhi 3 cores, tons de azul e verde (não sei se isso pode ser considerado verde e sim um verde-água ou azul claro) e só depois, chegando pela metade do quadrinho, me dei conta que o bordado parecia um mar, um rio. Eram águas turbulentas. Eu estava interiorizando um processo de autoconhecimento mas muito ligado ainda à minha identidade e à minha questão profissional, processo esse que aliás, está longe de chegar ao fim.

No meio dessa angústia toda, eu tive uma epifania e comecei a ver aquilo como uma coisa muito boa, pois ideias boas e libertadoras às vezes surgiam e eu comecei a entender que esse bordado dizia respeito mesmo a essas ondas que vão e vêm e que dependendo de como eu o olhasse as águas poderiam estar turbulentas ou calmas.

Como as ondas, os momentos bons iam embora e as preocupações que antes diziam respeito só a mim mesma e ao meu processo interno, passaram a dar lugar a um momento turbulento com acontecimentos ruins que escapavam do meu controle e então eu abandonei o bordadinho e peguei até uma certa repugnância dele, como de tudo que me cercou durante aquele momento difícil.

As dificuldades não passaram e a dor e os pensamentos ruins às vezes dão lugar a momentos tranquilos e leves mas hoje resolvi terminar o quadrinho. Não me sinto mais aliviada nem mais leve com isso, mas de certa forma foi bom pensar na minha trajetória desde que comecei a fazê-lo.

Engraçado que a primeira página do livro que citei no post anterior, o “Nothing Special” da Joko Beck, começa falando de redemoinhos e do rio da vida e não pude deixar de pensar no meu bordadinho. Então depois de terminá-lo, resolvi reescrever essa parte e deixar registrado aqui os pensamentos que rondaram esse trabalho manual.

“We are rather like whirlpools in the river of life. In flowing foward, a river or stream may hit rocks, branches, or irregularities in the ground, causing whirlpool to spring up spontaneously here and there. Water entering one whirlpool quickly passes through and rejoins the river, eventually joining another whirlpool and moving on. Though for short periods it seems to be distinguishable as a separate event, the water in the whirlpools is just the river itself. The stability of a whirlpool is only temporary. The energy of the river of life forms living things – a human being, a cat or a dog, trees and plants – then what held the whirlpool in place is itself altered, and the whirlpool is swept away, reentering the larger flow. The energy that was a particular whirlpool fades out and the water passes on, perhaps to be caught again and turned for a moment into another whirlpool.

We’d rather not think of our lifes in this way, however. We don’t want to see ourselves as simply a temporary formation, a whirlpool in the river of life. The fact is, we take form for a while ; then when conditions are appropriate, we fade out. There’s nothing wrong with fading out ; it’s a natural part of the process. However, we want to think that thhis little whirlpool that we are isn’t part of the stream. We want to see ourselves as permanent and stable.

[…]

The stream needs to flow naturally and freely. If our particular whirlpool is all bogged down, we also impair the energy of the stream itself. It can’t go anywhere.

[…]

What we can best do for ourselves and for life is to keep the water in our whirlpool rushing and clear so that it is just flowing in and flowing out. When it gets all clogged up, we create troubles – mental, physical, spiritual.

[…]

The energy of life seeks rapid transformation. If we can see life this way and not cling to anything, life simply comes and goes. […] Yet, that’s not how we live our lifes. Not seeing that we are simply a whirlpool in the river of the universe, we view ourselves as separate entities, needing to protect our bondaries. The very judgment “I feel hurt”establishes a boundary, by naming an “I” that demands to be protected. Whenever trash floats into our whirlpool, we make great efforts to avoid it, to expel it, or somehow control it.”

let the stream flow

Teacher

“A butterfly begins as a worm, which moves slowly and can’t see very far. Eventually the worm builds itself a coccon, and in that dark quiet space it stays for a long time. Finally, after what must seen like an eternity of darkness, it emerges as a butterfly.
The life history of a butterfly is similar to our practice. We have some misconceptions about both, however. We may imagine, for exemple, that because butterflies are pretty, their life in the cocoon before they emerge is also pretty. We don’t realize all that the worm must go through in order to become a butterfly. Similarly, when we begin to practice, we don’t realize the long and difficult transformation required of us. We have to see through our pursuit of outward things, the false gods of pleasure and security. We have to stop gobbling this and pursuing that in our shortsighted way, and simply relax into the coccon, into the darkness of the pain that is our life.”
[…] “We have to give up our slavish obedience to whatever system of pain avoidance we have devised and realize that we can’t escape discomfort simply by running faster and trying harder. The faster we run from our pain, the more our pain overtake us. When what we depend on to give our life meaning doesn’t work anymore, what are we going to do?
Some people never give up this false pursuit. Eventually they may die of an overdose, literally or figuratively. In the struggle to gain control we go faster, we strain, we try harder, we squeeze people tighter, we squeeze ourselves tighter. Yet life can never really be brought under control. As we flee from reality, the pain increases. This pain is our teacher.
Sitting is not about finding a happy, blissful state. The states may occur in sitting, when we’ve really experienced our pain over and over, so that finally there’s just letting go. That surrender and opening into something fresh and new is the consequence of experiencing pain, not a consequence of finding a place where we can shut the pain out.”
[…]

“The first, essencial step in becoming a butterfly is to recognize that we can’t make it as a worm. We have to see through our pursuit of the false god of comfort and pleasure. We have to get a clear picture of that god. We have to relinquis hour sense of entitlement – our sense that life owes us this and that. For exemple, we to abandon the notion that we can compel others to love us by doing things for them. We have to recognize that we cannot manipulate life to satisfy ourselves, and that finding fault with ourselves or others is not an effective way of helping anyone. We slowly abandon our basic arrogance.”

Trechos do livro “Nothing Special – Living zen”, Charlotte Joko Beck

Teacher

os dias

e os alívios se misturam a memórias que dilaceram o peito. um dia bom, um dia ruim. os ruins me lembram dos dias bons que eu vivi ao seu lado. de assistir a um show abraçado, de como eu me segurava no seu corpo quando estávamos no metrô. de como era linda a claridade do dia enquanto tomávamos café da manhã. de como eu me sentia simplesmente simples, normal. de como você me olhava e me achava bonita. de como era bom viajar ao seu lado. de como era bom comer pipoca. de como era bom saber que se tinha com quem contar. de que alguém me queria e me desejava pra sempre. de como era bom rir, cozinhar e ouvir música. de como foi lindo montar a nossa primeira casa juntos. de como foi bom ser uma família. de como era bom não ter hora pra acordar no sábado e ficar na cama conversando. de como era bom ser o foco das suas fotos. de como seu cheiro combinava com o meu. de como a vida parecia simples e descomplicada. e agora eu tenho que esquecer. tenho que esquecer que eu fui feliz.

os dias bons pra mim são vazios. são quando o aperto no peito é um pouco mais leve. pouquíssimos dias se passaram mas sinto como se estivesse vivendo com esta angústia há tempos. e estava. você passou a não me acordar mais com um beijo, como fazia toda manhã há mais de 8 anos. você passou a não me enxergar. eu era uma estranha dentro da minha própria casa. eu me sentia só. eu chorava sozinha. eu esperava que você visse. que a gente trocasse olhares e você entendesse, que você pudesse me ler como você costumava fazer e me acalmasse. mas você não estava lá. você foi indo embora devagarinho. silencioso e desonesto.

você morreu. o sentimento que você tinha por mim morreu. e isso tem sido difícil de aceitar. mesmo quando a pancada é forte, a gente custa a acreditar. custa a se situar. custa a enxergar lá na frente.

a gente quer que o tempo passe rápido. que a ferida cure de um dia para o outro. mas nada disso acontece. só resta esperar.

os dias