home is where the heart is


uma das coisas que sempre gostei nessa vida é de tecidos. roupas, retalhos, bordados, farrapos, tudo. e sempre me pareceu difícil inserir a qualidade do têxtil, do tátil em um trabalho de arquitetura.  mas uma coisa foi puxando a outra e cada vez mais o têxtil ganhou força em mim e no meu tcc.

como disse no post anterior, queria me propor a soltar aos pouquinhos partes do que tenho escrito durante o processo. e hoje é sobre a roupa que eu quero compartilhar.

“A Roupa

A roupa, a vestimenta, o têxtil sempre teve um papel muito determinante na minha vida, pois sempre me senti muito atraída por tudo que é têxtil. Seja quando minha avó me dava retalhos de tecido para brincar, ou quando meus pais me deram de presente um pequeno tear de plástico, seja quando eu quase me decidi a estudar moda. Sempre gostei muito da condição do têxtil, do tátil, da roupa, da moda.

Mas mais do que mero abrigo, modismo ou adereço, as roupas para mim, possuem uma conotação muito mais profunda, que ao longo do processo do TCC, percebi, se aproxima muito daquele que tanto me agrada na arquitetura. Aquilo que me cativa em arquitetura, é o que também me cativa na roupa.

No filme “Identidade de nós mesmos”, do cineasta alemão Wim Wenders, o estilista japonês Yohji Yamamoto, sobre quem gira em torno o filme, diz em algum momento: “Por exemplo, no início do século 19, se você tivesse nascido num país pobre, o inverno seria rigoroso para você, seria muito frio. Então, você precisaria usar roupas de verdade. Não são roupas da moda. O casaco é tão lindo, porque você sente tanto frio e não consegue viver sem aquele casaco, por exemplo. Ele parece seu amigo, ele parece sua família. E eu sinto muita inveja disso. Se as pessoas pudessem usar minhas roupas desse jeito eu ficaria tão feliz porque…Por exemplo, quando uma roupa, um vestido, um paletó, um casaco, por si só, jogado no chão ou pendurada permite que você reconheça: ‘este é John’ ou ‘este é Tommy’… Aquela roupa é você.”

Esse sentimento presente na roupa, o fato de que a roupa recebe nosso corpo, nossa forma, nossos odores, etc, para mim, se aproxima muito do sentimento presente em alguns lugares, em ambientes construídos. Pois nós habitamos também as nossas roupas, assim como habitamos nossa casa.

Peter Stallybrass em seu livro “O Casaco de Marx”, coloca em palavras muito do que me cativa na roupa. Em seu ensaio “A vida social das coisas: roupas, memórias e dor”, ele nos fala principalmente que “ao pensar nas roupas como modas passageiras, nós expressamos apenas uma meia-verdade. Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem.”

Esta condição não-efêmera, presente também na arquitetura, sempre me inquietou. Qual a responsabilidade de pensar, projetar e construir um edifício! Que assim como as roupas, possuem uma história própria, mas que resistem à história dos nossos corpos. Assim como a arquitetura, as roupas permancem. São os corpos que as habitam que mudam.

Para Stallybrass, o poder particular da roupa está estritamente associado a dois aspectos quase contraditórios de sua materialidade: sua capacidade de ser permeada e transformada tanto por quem a fabrica quanto por quem a veste; e a sua capacidade de durar no tempo. “A roupa tende pois a estar poderosamente associada com a memória ou, para dizer de forma mais forte, a roupa é um tipo de memória. Quando a pessoa está ausente ou morre, a roupa absorve sua presença ausente.””

ontem decidi que ia testar como fazer bordados. bordados triviais que ainda não sei fazer e que podem ser inseridos de alguma forma no meu trabalho. já tenho alguma ideia de como fazer isso, mas tenho que testar antes, ver quanto tempo demora e etc. então decidi começar por algo simples.

vi esta frase há algum tempo na internet e sabia que ia usar em algum momento, pois ela tem tudo a ver com o meu tcc, sobre espaços e outras coisas que habitamos, que nos envolvem e que nos fazem sentir bem. essa minha relação com o tecido faz com que eu me sinta em casa, concentrada e feliz quando estou fazendo alguma coisa com ele. e é isso que eu entendo por “sentir-se em casa”.

mas sobre isso, eu falo outra hora.

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home is where the heart is

2 thoughts on “home is where the heart is

  1. adorei o texto!! achei linda a parte que fala que habitamos nossas roupas.
    me fez pensar no quanto certas roupas me representam e, ainda mais, no quanto elas refletem certas fases da minha vida. 🙂
    mas tenho que admitir que fiquei mais intrigada mesmo foi pelo bordado. uma gracinha! como faz, hein?

    1. paulafranchi says:

      haha, é mais fácil e podre do que parece. é que linha colorida e uma fotinho deixam tudo com cara de fofura. mas é bem ridiculo. vou fazendo e vou te mostrando, pode deixar. 🙂

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