Ontem assisti pela segunda vez o filme do Wim Wenders sobre o Yohji Yamamoto, Notebook on cities and clothes, de 1989. Mas a primeira vez foi vazia eu acho. Parecia que eu estava diante de algo que eu deveria ou queria compreender e absorver, mas não absorvi. Não é nada sério também. Mas dessa vez me identifiquei muito com várias coisas. Assisti ao filme de um jeito que só posso assistir sozinha, em alguma madrugada.

cena do filme – yohji em seu atelier

Existem coisas, conceitos, mensagens, que chegam num momento da sua vida em que você não pode captá-los, não pode identificá-los como parte de você mesmo.
Não sei o que eu de fato ‘apreendi’ desse filme. Mas sei que algumas coisas ganharam significado pra mim. Ou ele foi falando coisas no filme que estão fazendo muito sentido pra mim no momento. É como se ele falasse por mim.
Gostei de como ele fala sobre a importância que o material tem no trabalho dele, o toque do tecido e como “fazer roupa sempre implica em pensar em gente”.
Para ele, primeiro vem a matéria prima, depois a forma. “O que sustenta o quê?” “talvez as formas exijam um certo material ou certos materiais exijam uma forma adequada.” 

cena do filme – yohji no ensaio de um de seus desfiles em Paris

 Fiquei pensando em como essa dualidade ‘forma-material’ também é presente o tempo todo na arquitetura e principalmente em como ‘fazer’ uma arquitetura demanda que se pense sobretudo em ‘gente’.
 Me identifiquei muito também quando ele falou “eu só estava interessado em fazer algo à mão. É tão legal se concentrar em algo e esquecer o passar do tempo”.
Pois este tem sido um ponto-chave para mim no momento, em que eu tento entender minhas referências e processos que me impulsionaram nesse tempo todo no curso de arquitetura. E eu sinto cada vez mais que o ‘tátil’ me faz muita falta e eu acabo tendo que ir buscar isso em outros lugares.

uma das dobraduras que eu tenho feito repetidamente

E nesse sentido, outra coisa que gostei foi como Yohji falou do tempo. “Quando eu era jovem, isto é, há 20 anos, eu achava que, se pudesse desenhar o tempo,… Porque gosto de roupas de segunda mão, coisas usadas, velhas. E quando você quer algo que tenha realmente este toque, precisa esperar dez anos para que o envelhecimento chegue. Isso significa tempo. Você está desenhando o tempo. Eu ficava pensando nisso: se eu pudesse desenhar o tempo seria muito legal.” 
Mas sabe, o que eu gostei mais, foi quando ele fala sobre um livro em que ele fica olhando fotos antigas de pessoas, observando tudo. Não só suas roupas, tudo. E ele diz que o que ele gosta nessas fotografias antigas é que são “pessoas de verdade vestindo a realidade, não roupas, mas sim a realidade”. 

cena do filme – um dos livros de fotografias antigas de yohji

E ele continua falando sobre sua idéia de roupas, e fiquei muito feliz e certamente aliviada em poder ter traduzido assim, um sentimento que eu tenho sobre isso. “…porque as pessoas não consomem a roupa, elas podem viver com aquela roupa. Isso significa pra mim: ‘que eu quero fazer algo assim’. Por exemplo, no início do século 19, se você tivesse nascido num país pobre, o inverno seria rigoroso para você, seria muito frio. Então, você precisaria usar roupas de verdade. Não são roupas da moda. O casaco é tão lindo, porque você sente tanto frio e não consegue viver sem aquele casaco, por exemplo. Ele parece seu amigo, ele parece sua família. E eu sinto muita inveja disso. Se as pessoas pudessem usar minhas roupas desse jeito eu ficaria tão feliz porque…Por exemplo, quando uma roupa, um vestido, um paletó, um casaco, por si só, jogada no chão ou pendurada permite que você reconheça ‘este é John’ ou ‘este é Tommy’… Aquela roupa é você. E nesta época moderna, por exemplo, no Japão, todas as pessoas se consideram muito ricas. Então acham que podem consumir tudo. Elas acham que consomem até sua própria vida. Elas consomem tudo. E não entendem o significado dos objetos, de uma pedra, de uma árvore, das coisas, de tudo. Elas acham que podem comprar tudo. E isso é muito triste. Então eu fico muito feliz de voltar a essas fotografias da época em que as pessoas não podiam comprar nada, quando elas eram forçadas a viver com coisas muito simples.”

cena do filme – yohji em sua loja em Tóquio

Mais cedo este ano, tive uma experiência muito interessante, diria até edificante na semana de moda de Paris. Eu senti algo parecido com isso e nunca pude explicar pra ninguém. Eu tentei explicar, mas não conseguia. Eu fiquei feliz em ver traduzido assim, sem querer, uma fagulha de sentimento que eu não sabia explicar. Estava muito frio. E as pessoas estavam com frio. Elas vestiam algo que não era real. Aquilo não fazia sentido pra mim. Elas eram uma foto, uma imagem. Elas não vestiam realidade. E ter essas palavras ‘realidade’ e ‘verdade’ para expressar isso, caíram como uma luva.
Acho interessante o quanto as experiências determinam o entendimento de uma coisa em um dado momento, num determinado contexto. Em tudo que vemos, ouvimos, fazemos associações com o que sabemos e vivemos. 
E isso me lembra algo que ele fala no final do filme. 
“Não estou interessado no futuro. Não acredito nele. Não confio no futuro. Não acredito nem em mim mesmo amanhã ou depois de amanhã. Eu me conheço no presente, arrastando o passado. É tudo que sei. É tudo que eu entendo. Melhor dizendo, as pessoas estão ao lado de uma janela entre o passado e o futuro, mantendo-se em equilíbrio.”




*fonte das imagens:
http://skelemitz.wordpress.com/2010/07/31/notebook-on-cities-and-clothes-1989-wim-wenders/
 

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